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Sou mesmo parvo! Da minha boca saem tantas asneiras, que parece a Cahora Bassa do disparate.
Sou mesmo parvo! Da minha boca saem tantas asneiras, que parece a Cahora Bassa do disparate.
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João Barbosa
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16:45
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referências: João Barbosa, tonterias
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Sérgio Fiadeiro Guerra Carneiro
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20:51
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referências: Sérgio Fiadeiro Guerra Carneiro, tonterias
Arrumar a vida é deixar de a viver. O que é da natureza é o caos. Todos os caos são um cosmos. Ai agora, pois com estas palavras torno a minha vida muito difícil.
Vou arrumar a minha, porque não gosto dela. Depois desarrumo-a toda e ainda mais. Hei-de pensar que não sei nada da vida. É melhor sentar-me e esperar.
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João Barbosa
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19:51
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referências: a estória, Instalação de Jan de Weryha-Wysoczanski, João Barbosa
Vou mudar de vida... da minha para a tua.
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João Barbosa
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21:10
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referências: João Barbosa, loucura e alma
No fundo do mar está um navio em pedaços e, junto dele, uma placa a lembrar o seu naufrágio... até que a água e o tempo os juntem num mesmo esquecimento.
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João Barbosa
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21:41
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referências: a diversidade, João Barbosa, Pintura de Francesco Guardi
Eu perdia-me aqui com a minha nostalgia e claustrofobia. Ficava ali só com os meus fantasmas a conversar ou falava sozinho. O corredor fechado não é um espaço muito. Não é um espaço pouco. É um espaço bastante.
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João Barbosa
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11:22
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referências: João Barbosa, loucura e alma

O Cavalo de D. José é um equídeo muito bem apessoado, preocupado com a sua aparência, um dandy.
Nesta gravura, publicada na Gentleman’s Gazette de 1760, vemo-lo trajando um lindo redingote de pernas de D. José elaborado pelo célebre alfaiate lisboeta Jorge Armando, com os mais finos linhos da Irlanda. Trata-se de um modelo de verão, mais ligeiro do que o adereço monarca completo e que dispensa a utilização de sela. Pode questionar-se a utilidade desta peça de vestuário, que não tapa do frio nem do calor, não protege da chuva, do vento ou do sol, nem tampouco cobre as partes pudendas de um cavalo, mas não se iluda o leitor, pois a primeira função de qualquer peça de roupa é o adorno e embelezamento do seu proprietário. Se a protecção dos elementos naturais fosse a razão que nos levasse a ataviar-nos de panos, o clima ameno da Capital do Reyno permitir-nos-ia uma nudez primordial durante grande parte do ano; se por outro lado fosse o pudor católico o motivo único para o vestuário dos fieis, então andaríamos todos trajados com aborrecidas sotainas de um tristonho tom pardo.
As pregas do casaco de pernas de D. José são cuidadosamente estudadas para conferir um ar natural ao conjunto. Os drapejados assim obtidos lembram as togas dos senadores da Roma antiga. O Cavalo de D. José tarda quotidianamente cinco horas em arranjar-se. este processo é tão lento e cuidadoso que os transeuntes, lá em baixo na praça, nem se apercebem dos seus aturados movimentos. O resultado de tamanha preparação confere-lhe alguma rigidez, mas não eram os colarinhos de Brummell tão engomados que tornavam impossível virar a cabeça sem que todos os membros o autorizassem? A elegância tem o seu preço.
À pergunta : "un Roi, a quoi ça sert?", lançada em tom baixo e rancoroso pelo cavalo de Marat quando passava aos pés da estátua, velho e maltratado, puxando uma carroça de vitualhas do exército de Junot, no fim de Novembro de 1807, o nosso quadrúpede respondeu surpreendido: "ora essa, é um complemento muitíssimo janota, velha pileca!"

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Sérgio Fiadeiro Guerra Carneiro
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14:31
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referências: O dito cavalo, Sérgio Fiadeiro Guerra Carneiro
Não é uma flor, é uma anémona. Até um economista percebe!
Olha bem, perece-te uma flor? Se te parece, estás bem. Se disseres que não, precisas dum saca-olhos.
Se olhares e disseres logo que é uma anémona é porque não tens um pingo de sensibilidade. Até um economista picuinhas diria que é uma flor! Por amor de Deus! Qualquer um diria que é uma flor, apesar de ser uma anémona!
Se te parece ser uma flor, parece-te bem... estás bem.
Se disseres que não, precisas dum saca-olhos!
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João Barbosa
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17:14
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referências: a estória, João Barbosa

O Sr. D. Cavallo Duarte Francisco Godofredo Hipólito de Mello Mascarenhas Vasconcellos e Sá de D. José, Cavalo de D. José para os amigos, é um animal nobre, elevado, mas, como é frequente em criaturas da sua estirpe, esconde no armário do passado um ou dois esqueletos cabeludos.
Em 1745, imbuído dos ideais iluministas abandona o país para se alistar no exército de Frederico o Grande, de quem se torna montada favorita durante a Guerra dos Sete Anos (só anos mais tarde soube das perferências heterodoxas do Imperador e percebeu a razão das pródigas carícias que este lhe fazia). Mas a vida de caudelaria, o convívio com intelectuais como o Cavalo de Voltaire e, sobretudo, a frequência de baias éguas de Alta Escola em breve arrefeceriam o seu ardor marcial avivando outros fogos. Após uma escandalosa relação com a égua persa de Sofia Wilhelmina de Bayreuth, que acabou num duelo em que matou o alazão de Giacomo Casanova, Cavalo de D. José teve que fugir apressadamente da Prussía. Ao receber a notícia da sua queda em desgraça, o seu velho pai, D. Cavallo Francisco José de D. João V, teve um desgosto tão grande que se recusou a trotar até ao fim da vida, passando directamente de um passo lento e pesaroso para um galope furioso.
Cavalo de D. José corre então a velha Europa frequentando as mais baixas estrebarias na companhia das piores bestas: cavalos de má raça, mulas de reputação duvidosa e grosseiros jumentos. Chega mesmo a passar algum tempo num cárcere de Nápoles e só a intervenção misericordiosa do seu primo Cavallo do Papa Bento XIV o livra do matadouro. São dessa época de devassidão equestre as desalinhadas tatuagens que mandou fazer no lombo e ventre e que podemos ver nesta gravura que vendeu para uma gazeta cor-de-rosa de Madrid a troco de uma ração de aveia.
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Sérgio Fiadeiro Guerra Carneiro
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15:55
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referências: O dito cavalo, Sérgio Fiadeiro Guerra Carneiro
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Caderno 4: cartas da casa dos cucos
A casa de arrumos e o caminho para o rio (quinta carta)
Foi no fim do Verão. Aqui nunca há Verão nem o cheiro das latadas, o pólen das margaridas a colar-se aos dedos, um velho a esmagar-nos o pulso com uma moeda das escuras «para chupar o ferrão da malina da vespa». Podia roubar da torre o Calendário Perpétuo – nunca soube bem do que efectivamente se trata – que ainda assim aqui nunca haveria Verão. Mesmo três vezes repetido no mesmo parágrafo: só a brancura dos lençóis e as salvas de inox com alfaias de gente de mãos bem tratadas e lá fora – do outro lado da janela embaciada – a mata de cedros da Boémia a prometer mais solavancos pelos carris adentro e um ou outro lobo a espreitar entre os troncos.
Perpétua era a amiga da Menina Júlia. Aquela casa de arrumos onde ambas guardavam os frascos vazios para a compota de marmelo do Outono e onde iam buscar diospiros para nos oferecer cobria-se de ceridónia [sic] no tempo quente. Era a panaceia que desde meninas colhiam, quebrando raminhos pelo talo para curarem as feridas uma da outra. «Não há maleita que medre com este leite amarelo, menino. Ora dê cá a mãozinha». E os arranhões das silvas desapareciam, assim como a chaga invisível das urtigas: um milagre da Menina Júlia e da Senhora Perpétua ali junto da casa dos arrumos.
O Fernanditinho não deixava a tia «botar-lhe o unguento»; tinha medo da tinta amarela a escorrer-lhe pelos braços, do toque morno na pele e do seu cheiro doce. «Não, não. Parece mijo de gato» e fugia pelo carreiro que levava dali à leira do rio.
Em caixas de madeira guardavam rolhas e meias velhas e deixavam-nos brincar com elas enquanto, sentadas num banco corrido, iam enxotando e matando os moscardos que lhes pousavam nos joelhos e nos lenços do regaço.
Na rua estreita e sinuosa de seixos e barrigas de cal e pedra que se descia até ao açude, moravam – desde sempre – uma em frente à outra. Uma janela em frente da outra (perto do murmúrio constante do moinho e da levada). Na rua estreita por onde as crianças corriam de toalhas a fazer de turbantes e sacos de plástico com sabão macaco para a barrela da tarde.
[parágrafo ilegível]
Há já muito tempo que não falavam. Viam quem passava, olhavam uma para a outra, perdiam-se nos olhos uma da outra e franziam as testas a revolverem as suas recordações de velhas.
Agora a Senhora Perpétua morreu e a janela da frente está fechada.
Comboio Cesky Budejovice/Praha, T.G.N.
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Alexandre Sarrazola
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23:03
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referências: Alexandre Sarrazola (transcrição), Tiago Góis Naia
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Alexandre Sarrazola
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22:47
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referências: Alexandre Sarrazola (transcrição), Tiago Góis Naia
Zirkadia situa-se num vale profundo, mas a terra é plana e verdejante. No passado, os seus habitantes dedicavam-se à pastorícia. Hoje o país exporta petróleo e continua a produzir carne de ovelha e lã. A água mineral é outra fonte de receitas. O termalismo e o turismo a ela associado têm tornado famoso este pequeno e pacato país.
Zirkadia é governado por um Rei bondoso que colecciona selos e é activista dos direitos dos animais. Ao domingo reza ajoelhado na Catedral do Imaculado Coração de Maria, começada a construir no século XII e terminada no século XVIII, onde prevalece o estilo gótico.
Em Zirkádia bebe-se muita água mineral, cerveja feita a partir de cevada e vinho branco com baixa graduação alcoólica. É comum verem-se homens e mulheres de mão-dada nas ruas. As pessoas cumprimentam-se com quatro beijos na cara. As palavras «bom dia» e «obrigado» são empregadas com frequência. Os Zirkadianos não gostam que lhes falem em estrangeiro. Não há grandes artistas conhecidos, no passado ou no presente, que tenham nascido em Zirkadia, pois este país sempre foi provinciano e isolado. Além da água mineral ser, claramente, a bebida preferida dos seus habitantes.
A língua Zirkadiana não é indo-europeia. Os Zirkadianos não sabem se são caucasianos e recusam qualquer tipo de racismo. Durante o período pré-histórico desenvolveu-se um tipo de escrita baseado em traços e quadrados, que está ainda hoje por decifrar e que passou para o folclore pictórico local. O que aliás não é de estranhar num país onde as férias são passadas, em regra, em termas.
Zirkadia é habitada por mais de cinco milhões de pessoas e toda a gente é benvinda e bem integrada, mas é obrigada a gostar de água mineral e a passar alguns dias das férias em termas.
Zirkadia chama-se esta imagem e roubei-a a alguém que não sei o nome. Desconheço-lhe o significado original.
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João Barbosa
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10:04
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referências: a estória, João Barbosa
Prometi a mim mesmo que não falava no cavalo de D. José, mas como sou um joguete nas mãos do "Imp of Perversity" (1), cá vai:
O cavalo de D. José é um cavalo sereno, fleumático, quase diria nonchalante.
Levanta a pata como quem diz "tiguem-me daqui estes bichos" (vide infra "cobras"), com alguma repulsa mas absolutamente nenhum temor. o g em vez do r não é uma gralha; desde o regicídio, a que o nosso quadrúpede teve que assistir impávido, que adoptou este tique dos Incoyables (2). Já encomendou umas calças às riscas largas azuis e brancas mas não há maneira de lhas trazerem. Não há criadagem como antigamente.
(1): The Imp of the Perverse
(2): Les Icroyables
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Sérgio Fiadeiro Guerra Carneiro
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17:36
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referências: O dito cavalo, Sérgio Fiadeiro Guerra Carneiro
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Alexandre Sarrazola
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00:23
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referências: Alexandre Sarrazola (transcrição), Tiago Góis Naia
Caderno 4: cartas da casa dos cucos
A hora do Terço e a corda-do-mato (segunda carta)
Pelo tempo em que a orla da serra se pintava de matizes dourados com laivos de fogo, a Menina Júlia (tão velha como o carvalho do adro) vinha de mãos estendidas oferecer-nos ouriços de castanhas e nozes tipo brobdingnag [sic] que trazia no grande bolso do avental negro. Um dia ensinou-nos a fazer uma corda-do-mato: muito grossa com um gancho de madeira na ponta aproveitado de uma ramada de limoeiro, que nós usávamos para brincar e ela para enlaçar molhos de fetos e restolho que carregava para o cimo da serra ou para dar de comer a uma vaca que tinha na leira do rio.
Mas para chegar outra vez esse tempo ainda faltava a época dos figos, a debulha do milho e as fogueiras altas a esconder da noite as nossas brincadeiras de «meninos das silvas».
[passagem rasurada]
Durante o dia, o rio despenhava-se lá dos cimos da serra, fintava as escarpas de xisto, galgava açudes de musgo e junquilho e vinha enrolar-se manso numa clareira bordejada de amieiros, flores do campo e silvados, mesmo junto à leira da Menina Júlia. Era o lugar onde espantávamos piratas e prometíamos paz aos apache.
Naquele Verão, a vaca da Menina Júlia esteve ali três dias inteiros a boiar; a carcaça inchada, presa nas raízes de um amieiro debruçado sobre o rio. Escondidos detrás do mato, atirávamos-lhe pedras à barriga. Mas, ao contrário das nossas expectativas, não era como um colchão de água que devolvesse os seixos em ricochete: as pedras perdiam-se no pêlo liso do dorso e afundavam-se no leito. O cheiro tornou-se insuportável e já ninguém tomava banho dali para baixo nos açudes da várzea.
A vaca tinha sido presa por uma pata traseira com uma corda-do-mato para não ir às amoras (por essa altura «já o diabo tinha passado por elas»). Caiu à água por um barranco da margem e o gancho prendeu-se na raiz.
Ninguém veio salvá-la porque o sobrinho da Menina Júlia – o Fernanditinho – a internara na véspera da queda «por causa de começar a rir na missa e a mijar-se durante a hora do Terço». Foram os bombeiros que levaram dali o bicho e limparam as águas.
E também ninguém estranhou quando a Guarda foi dar com o Fernanditinho pendurado num castanheiro da orla da serra com uma corda-do-mato a enlaçar-lhe por baixo dos braços o peito já meio estrangulado.
Comboio Krumlov/ Cesky Budejovice, T.G.N.
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Alexandre Sarrazola
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00:13
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referências: Alexandre Sarrazola (transcrição), Tiago Góis Naia
As minhas cuecas são confortáveis. São tão confortáveis que gosto de dormir em cuecas e em casa passeio em pelota só com elas vestido. Não fosse o frio e era capaz de sair para a rua em cuecas.
São bonitas as minhas cuecas. Estou com uns quilos a mais e inscrevi-me num ginásio. Aí está um sítio onde jamais pensaria em ir só de cuecas, porque há nos ginásios quem goste de cuecas e do que lá está dentro. Que incómodo!
As minhas cuecas são confortáveis e às vezes a minha vida parece um fim do mundo. A minha vida não é tampouco o fim do mundo em cuecas!
O que verdadeiramente me importa é estar confortável. Hoje e amanhã. Sempre. Nem que fossem de aço, as minhas cuecas.
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João Barbosa
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10:28
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referências: a estória, João Barbosa
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Alexandre Sarrazola
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19:18
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referências: Alexandre Sarrazola (transcrição), Tiago Góis Naia
O meu quarto tem três janelas. Cada uma tem um bocado de rio. Uma está de frente para a cama e as outras estão de lado. Cada uma de seu lado. Não há luz que me falhe. Por cima da cama tenho um quadro, um Sagrado Coração. Não há luz que me falte.
Todas as noites ajoelho-me voltado para uma janela e rezo a olhar o céu. Sempre um bocado diferente, sempre com uma estrela em mente. O meu quarto tem três janelas.
Tenho telhados à frente, entre as janelas e o rio. Andorinhas, pardais, pombos e gaivotas do vidro ao azul do Tejo e do céu. Vejo roupa estendida, vejo as mulheres a estende-la e outras de gargantas abertas a chamar. Tenho um quarto com três janelas.
Todos os dias rezo, peço ajuda aos meus Santinhos. Amanhã não será dia de dívida. Amanhã não será dia de míngua. Amanhã terei a cama cheia e a barriga também. São de guilhotina as janelas e têm portadas verdes, as três janelas do quarto. Da cama, ao acordar, vejo quadros com a cor que Lisboa me quer dar.
Tenho três janelas no quarto, não há luz que me falhe. Sobre a cabeceira está um quadrinho, um Sagrado Coração, ao qual rezo de joelhos, para que a luz não me falte.
escrito por
João Barbosa
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21:00
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referências: a estória, João Barbosa