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domingo, 30 de março de 2008

Cartas da Casa dos Cucos - VII

Caderno 4: cartas da casa dos cucos
A ascensão do sineiro no princípio da Primavera (sétima carta)


A casa está vazia. Todas as salas, os quartos todos. Resta a minha mesa (não é minha), o papel pardo sob o caderno (a fazer de toalha) e o frasco de tinta preta (não chega a ser um tinteiro). Os móveis estão cobertos por lençóis e mantas ensopadas de orvalho. Há janelas partidas para o trânsito dos pássaros e musgo sob as frechas das portas que cresce do terraço para o escritório.
O Senhor Ezequiel fez as pazes comigo. Dorme agora enroscado dentro da minha orelha. Já não o admoesto mais (esqueci-me das lesmas e do rasto que desenhavam sobre as lousas do adro). Atei-lhe os pulsos com gaze (sobrou de uma lata de costura) para estancar o (pouco) sangue. Aninha-se e estende os pés para a minha nuca.
Na segunda gaveta (por baixo desta com fotografias) encontrei a 6.35 do pai (a família ainda por cá anda nos retratos e na papelada roída pelos bichos). A corda-do-mato pendurei-a numa trave do tecto da cozinha (de onde pendia uma gambiarra e hastes de loureiro). Na cozinha começaram a crescer cogumelos, daqueles tenros com pintas vermelhas. Abro e fecho a primeira gaveta. Não são exactamente fotografias; pego-lhes com cuidado e inclino suas imagens: negativos sobre vidro com sais de prata e arestas onde me corto nos dedos.
O Senhor Ezequiel encolheu-se mais para trás e enche a cova da minha nuca. Agora parecemos dois namorados: de testas encostadas na fotografia; a engolir o mar pelas narinas e a deixar desaparecer um ombro nu (fora de campo) no canto estalado. São instantâneos de casamentos, cenas de praia e barcos à vela, tios de mãos dadas, crianças (fatinhos de marujo), gente feliz; dias felizes como este em que combinámos subir a encosta de aveleiras, carvalhos e castanheiros e depois galgar um pouco mais com os fetos a darem-nos pelo peito a anunciar já a luz do topo. Já não há quem toque os sinos. O Senhor Ezequiel tem artroses nas mãos como eu tenho feridas nos dedos.
As arestas dos rostos de gente tão feliz (a casa das fotografias). Lá pelos lados da orla de copas cheias de pássaros descansarei da caminhada. Abro e fecho a gaveta. A 6.35 já vai despachada no bolso do Ezequiel. Está bem ensinado (leva a corda-do-mato enrolada no ombro). «Diz-me uma coisa bonita» e encosta-me bem aquilo à nuca. «Agora somos só um». Depois deixa-me estendido entre a esteva a olhar para ele - magnífico - contra o céu azul (agora azul, que parou de chover no bosque e os bichos vêm conhecer-me, lamber-me as pálpebras, farejar-me as mãos o nariz e os lábios). Logo ali à frente o Ezequiel estaca junto da grande árvore – aquela adornada por uma coroa baixa de cogumelos com pintas vermelhas – e lança a corda por sobre o galho mais forte. Debruça-se mais uma vez sobre o ventre, «só mais uma vez, menino» e adormece em descanso embalado pela música inocente do seu corpo distendido (agora na companhia do Acácio e do Zacarias; um braço abandonado por cima de cada ombro, a rirem dos dias felizes para a máquina dos retratos). [frase “Enquanto ouviam foliões El dia que me quieras.” riscada].
Abro e fecho a gaveta. Reparo na 6.35, na cigarreira e na bússola (esquecemo-nos de a levar para a serra). Acendo o cigarro que resta. Fecho a gaveta e ergo-me; estugo o passo, os restos da chuva da madrugada a colarem-me as calças aos joelhos contra a giesta e a esteva. Deixo para trás o Ezequiel (já não precisamos um do outro; não se aninha já dentro da minha nuca; não toca os sinos). Deixo-o na companhia do velho carvalho, coroado por cogumelos orvalhados e pelo sorriso de seus neófitos amigos a quem se abraça na fotografia. Alcanço o cimo da serra e deixo-me caminhar de olhos fechados. Nunca aqui tinha estado no cimo da serra (esta fotografia junto da bússola e do terço da avó). Abro os olhos: a luz do fim da manhã espanta os bichos e abre-se sobre o vale onde corre um lameiro largo juncado de choupos juvenis e flores do campo. A luz amplifica todas as cores e soergue brilhos e pólenes do lameiro do vale (neste lado da serra onde eu nunca viera). Eis que então se ouvem os sinos no campanário da vila (onde vazia ficou a casa).
Eis enfim o caminho para nenhures.




Santa Apolónia, T.G.N

Cartas da Casa dos Cucos - VI


























Caderno 4: cartas da casa dos cucos
Comédias, Furgão e a companhia do Fogão (sexta carta)


Hoje acordámos no furgão que está ali abandonado sob a latada. Crescem-lhe dentro ervas daninhas e os bichos fazem tocas nos estofos que já foram uma lura (quando o Ezequiel criava coelhos). Acordámos com a chuva a tamborilar no tejadilho.
Hoje pode ter sido dia de visita (embora ninguém me visite vai para mais de quarenta e nove dias, a avaliar pelos riscos na contra-capa do caderno). Hoje pode ter sido um desses dias [expressão “,meu amor” riscada]. É noite. Acordei (já aqui, no “escritório” da casa). Estão dois presentes na minha mesa-de-cabeceira (junto à cama de ferro e ao lavatório de esmalte): o relógio do avô e uma bússola daquelas muito pequenas com uma muito pequena lupa para ampliar pequenas coisas que ficaram órfãs de seus sentidos. Belos objectos sem préstimo para quem já perdeu a conta às horas e o sentido rigoroso do norte (deixamos pelo caminho a bagagem que deixou de nos fazer falta e nem por isso caminhamos mais leves).
No jardim acenderam umas gambiarras que me ferem a vista (acordaram-me como tu me acordavas quando éramos feitos de duas medidas de luz e uma de sombra). Há gente em pijama e camisa de noite a dançar de roda do tanque dos peixes vermelhos - não o da rega, onde se afogavam os gatos vadios - e a cirandar por entre os buxos do jardim. São gambiarras de luzes brancas, amarelas, fracas de brilho. Nada que se compare com aquelas com que o Zacarias da Augusta engalanava o terreiro da ponte para receber as Comédias. Eram dois dias por ano: depois dos Finados e pelo Entrudo. O Zacarias, que era coveiro, tinha boas mãos para as iluminações. Passava a tarde de volta do estendal de luzes e à noite recebia os artistas mais a colecta para o borrego da ceia (a pele já a pingar no chão da loja, prometida para um bornal ou uma gola de samarra no Inverno seguinte).
O avô levava-me pela mão (os olhos marejados de orgulho ou de uma tristeza imperscrutável); olhava o relógio: «já são horas das Comédias». Descíamos a rua do rio até ao terreiro. «Boa noite, Senhor Policarpo. Boa noite, menino», cumprimentavam-nos, uma de cada janela, a Menina Júlia e a Senhora Perpétua. Estugávamos o passo em direcção ao ajuntamento que já rodeava o estrado de tábuas emprestado pela banda filarmónica.
Um velho muito magro fazia o pino e caminhava sobre as mãos roxas como um enforcado voltado às avessas; uma mulher gorda engolia enguias vivas; e um senhor de bigodes aguçados fazia desaparecer sob uma colcha de cambraia «o Cavalo de Dom José» que reaparecia a trote vindo dos lados da rua do rio para gáudio de todos e do meu avô que, por um instante, me soltava a mão e aplaudia gritando “bravos”.
[passagem rasurada]
Depois íamos contando os seixos até à porta de casa «para espantar a fome do tempo». Se, pelo caminho, acontecia pararmos na taberna, o avô metia a mão ao bolso e estendia-me uma bússola pequena apetrechada com uma lupa. «Toma. Assim não perdes o sentido rigoroso do norte nem das letras miúdas no Livro». Sentava-se no degrau da entrada e ficava a ouvir – ao longe – o choro contínuo das crianças dos comediantes.
Agora posso dizer, enquanto olho pela janela do comboio: hoje foi dia de visita e os cucos lá fora já dançam sem mim.

***

A casa agora está vazia. [passagem rasurada onde se lê “de retratos”]
Lá fora já não há quem toque o sino (trindades e finados) e os cucos – se os houve – espantaram-nos as mãos que solícitas traziam aqui copos de água e pratos de louça branca sobre panos de renda (naperons de mãos de caboz moribundo: sempre a beleza das campas floridas). Para os comprimidos; copos de água para os comprimidos. Ficou uma mesa-de-cabeceira com papéis velhos e pontas de lápis alemães. E o fogão a gás que não sei se funciona (desde que se acabou a camomila no saco do nicho deixei de lhe dar préstimo: ao fogão e à tua omoplata de salamandra à superfície da fotografia e da água dos meus olhos).
Ia (iria) jurar que ouvi o Cauteleiro empoleirado numa oliveira – ali em baixo – a tocar El dia que me quieras. Foi ontem. Mas «não pode ser, menino, o Acácio finou-se vai para quase um lustro…», disse-mo a Menina Júlia. Apareceu-me aqui descalça e em camisa de noite: os pés roxos e o carrapito desfeito (tu ontem ao fundo das escadas do Malostranská a soltar uma nuvem loura) com os cabelos a darem-lhe pelos ombros. Eu tão pouco jamais a vira sem o carrapito armado. Abriu as mãos e deu-me uma noz de brobdingnag. «Esta outra é para o Ezequiel» (que dormia dentro do ouvido do menino que era eu). «Não se pode privar um homem de tudo, menino…». Descemos os dois ao galinheiro e esperámos até nos habituarmos à treva. Então o Senhor Ezequiel sorriu para nós (acordado) exibindo uma boca sem dentes: restos de penas coladas à espuma seca das comissuras dos lábios. Eu desatei-lhe os pulsos e a Senhora Júlia passou-lhe o unguento nas feridas deixadas pelo sisal.
O Senhor Ezequiel libertou-se da enxerga de serapilheira e foi a mancar despido até à porta (aqui atrás de mim) que conduz do pátio à rua. Da janela ficámos a vê-lo embrenhar-se para sempre no mato do caminho da serra.
Iria (ia) jurar que se voltou – ao longe – a exibir a noz de brobdingnag antes de desaparecer por entre os carvalhos. A Menina Júlia benzeu-me a testa e desceu a escada a arrastar a camisa pelos degraus.
Agora a casa está vazia. Ficou o fogão a gás como os restos de cartas ficaram espalhados pelo chão: lixo para alguém limpar. Vazia porque eu não conheço aquele homem insone nos espelhos; a casa dos cucos já não me serve. Abri a noz de brobdingnag, engoli-a sem mastigar, e sei que posso agora ir habitar o meu país de histórias.



Praha, Malostranská Beseda, T.G.N.


quinta-feira, 26 de julho de 2007

Cartas da Casa dos Cucos - V















Caderno 4: cartas da casa dos cucos
A casa de arrumos e o caminho para o rio (quinta carta)


Foi no fim do Verão. Aqui nunca há Verão nem o cheiro das latadas, o pólen das margaridas a colar-se aos dedos, um velho a esmagar-nos o pulso com uma moeda das escuras «para chupar o ferrão da malina da vespa». Podia roubar da torre o Calendário Perpétuo – nunca soube bem do que efectivamente se trata – que ainda assim aqui nunca haveria Verão. Mesmo três vezes repetido no mesmo parágrafo: só a brancura dos lençóis e as salvas de inox com alfaias de gente de mãos bem tratadas e lá fora – do outro lado da janela embaciada – a mata de cedros da Boémia a prometer mais solavancos pelos carris adentro e um ou outro lobo a espreitar entre os troncos.
Perpétua era a amiga da Menina Júlia. Aquela casa de arrumos onde ambas guardavam os frascos vazios para a compota de marmelo do Outono e onde iam buscar diospiros para nos oferecer cobria-se de ceridónia [sic] no tempo quente. Era a panaceia que desde meninas colhiam, quebrando raminhos pelo talo para curarem as feridas uma da outra. «Não há maleita que medre com este leite amarelo, menino. Ora dê cá a mãozinha». E os arranhões das silvas desapareciam, assim como a chaga invisível das urtigas: um milagre da Menina Júlia e da Senhora Perpétua ali junto da casa dos arrumos.
O Fernanditinho não deixava a tia «botar-lhe o unguento»; tinha medo da tinta amarela a escorrer-lhe pelos braços, do toque morno na pele e do seu cheiro doce. «Não, não. Parece mijo de gato» e fugia pelo carreiro que levava dali à leira do rio.
Em caixas de madeira guardavam rolhas e meias velhas e deixavam-nos brincar com elas enquanto, sentadas num banco corrido, iam enxotando e matando os moscardos que lhes pousavam nos joelhos e nos lenços do regaço.
Na rua estreita e sinuosa de seixos e barrigas de cal e pedra que se descia até ao açude, moravam – desde sempre – uma em frente à outra. Uma janela em frente da outra (perto do murmúrio constante do moinho e da levada). Na rua estreita por onde as crianças corriam de toalhas a fazer de turbantes e sacos de plástico com sabão macaco para a barrela da tarde.
[parágrafo ilegível]
Há já muito tempo que não falavam. Viam quem passava, olhavam uma para a outra, perdiam-se nos olhos uma da outra e franziam as testas a revolverem as suas recordações de velhas.
Agora a Senhora Perpétua morreu e a janela da frente está fechada.


Comboio Cesky Budejovice/Praha, T.G.N.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Cartas da Casa dos Cucos - IV




















Caderno 4: cartas da casa dos cucos
O clarinete e a oliveira (quarta carta)

Aqui deixam-me ter a máquina e um caderno. A cama de ferro e lençóis brancos. Foi ontem. Vinha de lhe dar de comer a malga de sorgo e o Senhor Ezequiel, enquanto lambia os beiços, lembrou-se «dos dias felizes». Aconteciam entre Abril e Maio, antes do calor começar a matar as papoilas. Era ele quem me segurava a mão pelas escadas acima da torre sineira; a Maria Madalena, ainda por emprenhar, seguia-nos afoita e espantava os pombos da beira dos sinos. O Senhor Ezequiel tocava matinas e deixava-me ficar ali. «Depois já sabe, menino, bate com a porta, dá duas voltas à chave e deixa-mas no buraco da tranca». E coxeava pelas sombras abaixo com a gata a brincar-lhe entre as pernas.
Do alto do retiro fresco ouvia tudo: os pombos que regressavam à torre, o rio a tropeçar nos pedregulhos do açude, o Acácio da taberna na azáfama de guardar sachos e enxadas na carrinha abandonada e o Cauteleiro à sombra de uma oliveira do horto a tocar La Llorona no clarinete velho que já fora do pai.
[passagem riscada onde se pode ler:”(…) “Ai de mi llorona, Llorona de azul celeste “(…) “entrou uma cantora canadiana na Vinarna acompanhada de um clarinetista (…) sentou-se junto do palco (…) “Aunque la vida me custe, No lejarei de querer-te”(..)”]
Numa tarde em que me debrucei no anteparo da torre vi os dois irmãos (mais ou menos da minha idade); de cabelo rapado: o mais novo com um casaco do mais velho, o mais velho com uns sapatos de um primo que agora estava na tropa; «parecem dois macacos» dizia o Cauteleiro que tinha vindo tocar para a minha beira.
Às vezes dávamos-lhes de comer; eram iguais a nós em tudo menos nas papadas dos olhos e nas mãos (de velhos); faziam as melhores fisgas do adro. O pai tinha partido as duas pernas num dia longe num lugar longe; agora partia-lhes a cara quando mijavam na cama. Um de gravata o outro de laço, nos olhos um brilho trémulo de orgulho ferido: iam à primeira comunhão da irmã mais nova com roupa de empréstimo.
Às vezes ainda os vejo pelo avesso dos olhos quando me emprestam um lugar a um canto da sala para me vestir da idade adulta: um macaco



Cesky Budejovice/ Vinarna Voltaire, T.G.N.






terça-feira, 24 de julho de 2007

Cartas da Casa dos Cucos - III


Caderno 4: cartas da casa dos cucos
O Senhor Policarpo ao Largo do Menino Deus (terceira carta)

O Senhor Policarpo tinha vindo de Lisboa para trabalhar na Casa do Povo. Era o homem mais elegante da vila, sempre de chapéu ao lado e fato de três peças, o sorriso meigo, um aceno de simpatia e às vezes um rebuçado para a tosse para oferecer a quem com ele se cruzasse ao fim da tarde no caminho do trabalho para a Casa do Rio (onde viera viver com a filha e o neto depois de enviuvar). O senhor Policarpo tinha uns olhos fundos, sempre marejados de índigo, e mal se lhe ouvia a voz quando o cumprimentávamos.
Em Lisboa – dizia-se – morara no Largo do Menino Deus e trabalhara no Senhor Roubado, numa retrosaria. Agora fazia a escrita da Casa do Povo.
Hoje passaria por um vulgar caso [adjectivo “clássico” riscado] de Dipsomania diagnosticado sem mais delongas.
À sexta-feira descia a rua até à praça e caminhava (sempre seguido pelo Mosto, o perdigueiro a quem o Cauteleiro dava de comer) até à entrada da taberna do Acácio (aquele que era clarinetista e foi a enterrar aqui há uns anos com a Banda atrás da carreta a tocar-lhe El día que me quieras). Descia os dois degraus, pousava o chapéu no balcão e – dir-se-ia que a medo – pedia a primeira taça, sempre a sorrir para um ponto fixo algures entre o calendário das Missões e a telefonia que o Acácio tinha exposta numa prateleira alta entre dois bonecos de barro: um Menino Jesus do Presépio e uma vaca sentada. Apoiava o cotovelo no tampo de mármore e ia bebendo e falando e bebendo e falando, num arrastado rosário de enunciados e invectivas dirigido a interlocutores que o Acácio não via algures entre a telefonia, a vaca e o Menino Jesus.
Depois, já de noite, subia os dois degraus rechaçando o amparo do taberneiro e a oferta de «ao menos um pastel de bacalhau para criar lastro» e ia descendo em direcção ao rio, perguntando sempre pelo Largo do Menino Deus.
Dizia-se que quando dava com a porta de casa gatinhava escada acima, ia acordar o neto mudo, e passava o resto da noite – até o Ezequiel tocar o sino – a mostrar-lhe um álbum de retratos que tinha sempre trancado numa mala de porão que guardava por debaixo da cama.
A minha mãe chamava-lhe «a mala dos segredos».

Cesky Budejovice/ Hotel da Estação Ferroviária, T.G.N.

Cartas da Casa dos Cucos - II

Caderno 4: cartas da casa dos cucos
A hora do Terço e a corda-do-mato (segunda carta)


Pelo tempo em que a orla da serra se pintava de matizes dourados com laivos de fogo, a Menina Júlia (tão velha como o carvalho do adro) vinha de mãos estendidas oferecer-nos ouriços de castanhas e nozes tipo brobdingnag [sic] que trazia no grande bolso do avental negro. Um dia ensinou-nos a fazer uma corda-do-mato: muito grossa com um gancho de madeira na ponta aproveitado de uma ramada de limoeiro, que nós usávamos para brincar e ela para enlaçar molhos de fetos e restolho que carregava para o cimo da serra ou para dar de comer a uma vaca que tinha na leira do rio.
Mas para chegar outra vez esse tempo ainda faltava a época dos figos, a debulha do milho e as fogueiras altas a esconder da noite as nossas brincadeiras de «meninos das silvas».
[passagem rasurada]
Durante o dia, o rio despenhava-se lá dos cimos da serra, fintava as escarpas de xisto, galgava açudes de musgo e junquilho e vinha enrolar-se manso numa clareira bordejada de amieiros, flores do campo e silvados, mesmo junto à leira da Menina Júlia. Era o lugar onde espantávamos piratas e prometíamos paz aos apache.
Naquele Verão, a vaca da Menina Júlia esteve ali três dias inteiros a boiar; a carcaça inchada, presa nas raízes de um amieiro debruçado sobre o rio. Escondidos detrás do mato, atirávamos-lhe pedras à barriga. Mas, ao contrário das nossas expectativas, não era como um colchão de água que devolvesse os seixos em ricochete: as pedras perdiam-se no pêlo liso do dorso e afundavam-se no leito. O cheiro tornou-se insuportável e já ninguém tomava banho dali para baixo nos açudes da várzea.
A vaca tinha sido presa por uma pata traseira com uma corda-do-mato para não ir às amoras (por essa altura «já o diabo tinha passado por elas»). Caiu à água por um barranco da margem e o gancho prendeu-se na raiz.
Ninguém veio salvá-la porque o sobrinho da Menina Júlia – o Fernanditinho – a internara na véspera da queda «por causa de começar a rir na missa e a mijar-se durante a hora do Terço». Foram os bombeiros que levaram dali o bicho e limparam as águas.
E também ninguém estranhou quando a Guarda foi dar com o Fernanditinho pendurado num castanheiro da orla da serra com uma corda-do-mato a enlaçar-lhe por baixo dos braços o peito já meio estrangulado.

Comboio Krumlov/ Cesky Budejovice, T.G.N.

domingo, 15 de julho de 2007

Cartas da Casa dos Cucos - I


Nota de apresentação

Quando, muito recentemente, o meu amigo João Barbosa me sugeriu que o acompanhasse e ao Sérgio Carneiro no Cavalo de Dom José, ocorreu-me que, mais do que publicar textos da minha autoria, melhor e mais útil seria dar a conhecer os textos do nosso amigo comum Tiago Góis Naia (desaparecido em 1999 no Canal do Príncipe). Quase dez anos volvidos após o nosso encontro fugaz em Praga, considero ser já tempo de partilhar as pequenas histórias que habitam o caderno que por essa ocasião me ofereceu. A nota biográfica que se segue foi extraída de um folheto elaborado para o lançamento do seu ensaio Belchior e Galo Coxo, evento que não chegou a ocorrer em virtude de, por motivos que não vêem ao caso, ter sido inviabilizada a sua publicação.

Seguir-se-á a transcrição possível do Caderno 4: cartas da casa dos cucos.


Nota biográfica
Tiago Góis Naia (n. 1969-)

Nasceu em Coimbra em 1969 no dia em que Armstrong pisou a Lua. Licenciou-se em História de Arte na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre 1995 e 1999 foi bolseiro de investigação da Fundação Baluarte (organização fundada em 1983 por oficiais do Exército na reserva) tendo, nesse âmbito, publicado artigos sobre o capítulo dedicado a El Rey Dom Duarte na História Genealógica do teatino António Caetano de Sousa, as viagens do médico José de Anchieta, e a travessia atlântica empreendida em 1958 numa pequena embarcação por José Rodrigues Belchior, Felismina Rosa e Eduardo Galo Coxo. Ao serviço da Fundação, viajou para Praga em 1998 onde, num concerto da cantora canadiana Edith Coeur Bleu no Malostranská Beseda conheceu Alexandre Sarrazola, a quem ofereceu o manuscrito de Caderno 4: cartas da casa dos cucos.
Numa visita de trabalho a Cracóvia, T. Góis Naia envolveu-se num aparatoso episódio de pancadaria à porta do Muzeum Czartorryskisch com o então vice-cônsul português em Praga (numa disputa pela posse do caderno de campo do explorador José de Anchieta), que conduziu ao seu despedimento compulsivo da Fundação Baluarte. Uma versão diferente dos acontecimentos associa a Fundação (hoje extinta) e a actividade dos seus bolseiros a um serviço clandestino de recolha de informações diplomáticas.
O poeta foi visto pela última vez por Aida Zacarias – uma criada muda do Conde da Folgosa – num fim de tarde de Outubro em 1999. Estava aparentemente embriagado e fingia caminhar sobre as águas do Vouga, junto ao Canal do Príncipe, perto de Aveiro. Desde então, é dado como desaparecido (embora haja quem garanta tê-lo visto numa esplanada sobranceira ao Tejo no Inverno de 2003, acompanhado por Edith Coeur Bleu).
É também o protagonista de Krumlov, romance autobiográfico publicado em 2001 pelas Edições Baluarte.


















Lilliput e o Senhor Ezequiel (primeira carta)

Naquele Verão, eu e o Senhor Ezequiel (sacristão de parco préstimo e homem pródigo em frases inacabadas e onomatopeias que aparentemente só ele e os animais entendiam) travámos uma sólida e duradoura amizade. Hoje tenho a pretensão de – no quadro conceptual do que a actual Psicopatologia Compreensiva designa por “reversibilidade fenomenológica” – compreender com alguma lucidez a prodigiosa sucessão de acontecimentos em que se veio a ancorar esta empatia recíproca. Porém, naquele tempo eu era um rapaz de nove anos de idade, o Senhor Ezequiel um homem de cinquenta, e ambos dedicávamos longas horas à companhia dos bichos.
Uma ocasião, estava eu no adro da igreja entretido na tarefa de construir com seixos de rio e pequenos paus de oliveira uma aldeia que copiara de uma ilustração d’ As Viagens de Gulliver, apareceu-me o Senhor Ezequiel sorrindo desdentado sob o sol das três horas daquela tarde de Agosto. Contou-me com escarninhos trejeitos que abandonara no cimo da serra uma saca de serapilheira muito bem atada na boca com um baraço de sisal. No seu interior deixara a gata prenhe que já ia na sétima ninhada, «uma gata brava que me dava conta dos ratos, uma Maria Madalena com bigodes». Limpou a testa suada e foi dormir sesta.
No dia seguinte encontrámo-nos à beira do tanque da rega. Era manhã muito cedo e o Senhor Ezequiel, depois de tocar o sino, viera para ali «ver o naufrágio»: um pacote de leite selado com uma mola da roupa cheio de ratos lá dentro. De olhos parados sobre o lodo e os nenúfares aguardava paciente e feliz a submersão iminente. «Porquê, menino? Agora já não há Maria Madalena para lhes dar caça».
No fim de Agosto inaugurei Lilliput ocupando-a com uma dúzia de lesmas que recolhera na fonte que ficava nas traseiras da torre sineira. A aldeia era fresca e os bichos rastejavam felizes pelos seus caminhos de xisto e habitavam os abrigos de seixos.
[passagem ilegível]
Na manhã seguinte, depois de tocar o sino, o Senhor Ezequiel demorou-se alguns instantes junto de Lilliput e foi recolher-se em casa (vi-o eu pela janela do meu quarto que dava para o adro). Foi sem surpresa que encontrei a aldeia arrasada, os seixos afastados para um lado e os seus minúsculos habitantes espetados na terra com as pequenas traves de ramo de oliveira.
Hoje o Senhor Ezequiel não se queixa das marcas que o baraço de sisal – o mesmo que um dia me ofereceu para brincar no adro – lhe deixa nos pulsos amarrados por detrás das costas ao poste do fundo do seu galinheiro. Quando – dia sim, dia não – lhe vou lá dar de comer, calha por vezes surpreendê-lo com um pinto ou um pescoço de galinha a encher-lhe a boca. Nessas ocasiões não o admoesto. Como ele próprio costumava dizer enquanto curtia as peles de raposa, ou quando o encontrava debruçado sobre o ventre escondido detrás do milho, «também não se deve privar um homem de tudo, menino».

Krumlov, T.G.N.